11/12/17

Panteão Party

Panteão Party. Os monumentos devem realmente ser vividos mas há certos espaços que servem para convidar à solenidade, a uma certa introspecção e ao recato, ao respeito pela memória histórica, se é que vale alguma coisa a memória dos que lá repousam, começo a duvidar, e assim deviam permanecer. E esta justificação que li, dos restos mortais de Humberto Delgado, porque fundador da TAP, sepultados no Panteão, terem ajudado à opção pelo local? Pensava eu que isto da Summit tinha mais a ver com o futuro, o movimento para a frente, bem sabendo que não há geração espontânea, nem de micróbios nem de ideias. O Minho fica longe, sai caro deslocalizar uma janta que o país é enorme, e, azar, Nuno Peres move-se por lá, e ainda não morreu, e ninguém sabe nada de nada sobre materiais bidimensionais, como os dicalcogetos de metais de transição, em que os mais interessantes são os semicondutores, para aplicação na indústria eletrónica, mesmo que meio mundo esteja de olhos postos nisso. Não tendo sido a primeira jantarada na nave do Panteão, reafirmada a banalização do espaço, fico à espera da festança do Réveillon, este ano já não vou ao Mosteiro São Bento da Vitória. Vai ser de arromba, um evento de fazer mortos rolar na tumba. E aguardo em pulgas pelo baile de máscaras da noite do Aluine de 2018 na boa companhia dos espíritos de presidentes, artistas, escritores, pedagogos e poetas, afinal, gente do outro mundo. Ah, e futebolistas, estava-me a esquecer. Viva a era da total mercantilização sem escrúpulos, onde tudo tudo pode ter um preço e nada tem valor.

10/18/17

Pinhal do Rei - Afonso Lopes Vieira


Pinhal do Rei

Catedral verde e sussurrante,
aonde a luz se ameiga e se esconde
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar:
ditoso o "Lavrador" que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim;
ditoso o Poeta que lançou ao vento
esta canção sem fim...


Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
rei D. Dinis, bom poeta e mau marido,
lá vem as velidas bailar e cantar.

Encantado jardim da minha infância,
aonde a minh'alma aprendeu
a música do Longe e o ritmo da Distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico órgão cujo além se esfuma
no além do Oceano, e onde a maresia
ameiga e dissolve em bruma,
e em penumbra de nave, a luz do dia.
Por estes fundos claustros gemem
os ais do Velho do Restelo...
Mas tu debruças-te no mar
e, ao vê-lo,
teus velhos troncos de saudades fremem...

Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
são as caravelas, teu corpo cortado,
é lo verde pino no mar a boiar.

Pinhal de heróicas árvores tão belas,
foi do teu corpo e da tua alma também
que nasceram as nossas caravelas
ansiosas de todo o Além;
foste tu que lhe deste a tua carne em flor
e sobre os mares andaste navegando,
rodeando a terra e olhando os novos astros,
ó gótico Pinhal navegador,
em naus, erguida, levando
tua alma em flor na ponta alta dos mastros!...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que grande saudade, que longo gemido
ondeia nos ramos, suspira no ar!

Na sussurrante e verde catedral
oiço rezar a alma de Portugal:
ela aí vem, dorida, e nos seus olhos
sonâmbulos de surda ansiedade,
no roxo da tardinha,
abre a flor da Saudade;
ela aí vem, sozinha,
dorida do naufrágio e dos escolhos,
viúva de seus bens
e pálida de amor,
arribada de todos os aléns
de este mundo de dor;
ela aí vem, sozinha,
e reza a ladainha
na sussurrante catedral aonde
toda se espalha e esconde,
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar.

Afonso Lopes Vieira, Ilhas de Bruma, 1917

Sugestão de leitura: 

Cidadãos da Marinha Grande enviam queixa à Procuradoria Geral da República- Grupo de pessoas quer investigação ao incêndio que devastou Mata Nacional de Leiria. Para ler aqui.

Constança diz adeus ao MAI após fim de semana quente


A culpa dos incêndios é evidentemente do Governo, é dos partidos do Governo, é da oposição, é dos portugueses porque somos nós que elegemos Governos, é dos anteriores Governos e sobretudos dos desGOVERNOS, dos anteriores ministros e presidentes, é da cedência cega às politicas da UE que hipotecaram o futuro da floresta, da agricultura e atrofiaram o interior. A culpa dos incêndios é de não existir uma política da floresta e antes uma floresta de políticos onde predomina a monocultura do partido a que pertençam. A culpa é central e é local, a culpa não tem cúpula. A culpa é dos graus de temperatura média anual a mais que somam e seguem, e somarão, dos fenómenos atmosféricos episódicos extremos, dos que incendeiam por loucura, oportunismo, negócios escuros, dos incautos das queimadas, dos desleixados que não limpam, do desGOVERNO total a que se tem votado a floresta ao longo de décadas. A floresta é um assunto sazonal, são dossiers que vão de férias em Outubro e que só regressam depois da mudança da hora. A floresta só é lembrada quando dá dinheiro e quando arde, e até para o cartaz turístico do país é remetida sempre para segundo plano. A floresta é um assunto tão pouco importante que qualquer Zé comenta na TV durante meia hora mas os especialistas, engenheiros florestais, biólogos e outros, ficam em casa a ver e a rir-se para não chorar. A culpa é das árvores, se fossem antes estas e não aquelas isto já não acontecia. A culpa, a culpa. A culpa é ramificada, são muitos ramos e raminhos, raízes fundas cujas extremidades a custo se alcançam. A culpa vai tão longe que já ninguém lhe consegue deitar a mão. Em suma, e para acabar, a culpa é do fogo porque o fogo queima. 

E então não vamos demitir nem permitir a demissão da ministra porque isso nada resolve: não expia a culpa dos incêndios porque a culpa é maior do que aquela por que ela alguma vez poderá responder e procedendo assim estamos a fazer de Constança mais uma vítima dos incêndios; demitir Constança não traz os mortos de volta, não devolve a seiva às árvores queimadas, não repovoa os terrenos em cinzas, não há nenhum efeito útil nisso. Todavia gostaríamos, se pudéssemos, de chamar todos os anteriores que falharam na resolução do problema floresta e de os fazer pagar por isso. Constança é que não: deixemo-la continuar a fazer o que de melhor sabe fazer mesmo quando a senhora implora para sair após Pedrogão. 

O problema dos incêndios não se resolve com a demissão da ministra mas Costa que diga e também aqueles que andam a afirmar isto, porque acham que se resolve com a sua manutenção no lugar: porque o mais fácil é sair? Mas que resposta é esta?!! Exempliquem-me o que ela fez desde Pedrogão, o que fez Constança e o MAI por que dá a face? E, já agora, o que se fez antes de Pedrogão? Ela chegou em 2015. Em 2016 ardeu no Porto, em Aveiro, em Viseu e na Madeira. O período crítico de incêndios foi até prorrogado pelo Governo devido às condições meteorológicas. Segundo li, a área ardida em 2016 mais do que duplicou em relação a 2015, tendo os incêndios florestais consumido, até 30 de setembro, 150.499 hectares, embora em contrapartida, o número de ocorrências de fogo tivesse descido quase 25 por cento face ao mesmo período de 2015. Isto é bom? Isto é excelente?  A Protecção Civil comunicou que 35 por cento dos grandes incêndios tiveram origem intencional, 26% tiveram causa negligente e 29% desconhecidas. Também se verificaram mortes. Lembram-se? Ou foram poucas para serem lembradas? 

Do que recordo Constança encomendou estudos sobre o SIRESP, a que continuamos presos e a ver falhar nos momentos de crise, falou-se em meter reclusos a catar mata. Digam-me que mais andou Constança a urdir, eu também não andava de olho na senhora, mas entretanto fiquei a saber que não gozou férias: tem de haver mais qualquer coisa. Algures durante o verão o ministro da Defesa, Costa e Constança concordaram que a Força Aérea devia voltar ao combate das chamas, em Agosto ela não possuía meios aéreos que permitissem a realização de missões de combate a incêndios, agora é Outubro e também não tem. Porquê? Porque tudo demora o seu tempo. Correcto, aceito. Mas eu pergunto se o processo já foi sequer iniciado. Foi?

Constança não é nenhuma idiota. É uma jurista capaz com fama de trabalhadora. Não é lá muito hábil nas declarações que presta, não duvido da sua dedicação ao posto, mas, sobretudo, onde está a mudança que se espera a cada novo verão? E se a estrutura de liderança da Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC) foi alterada quase por completo desde que o Governo entrou em funções, com a substituição de sete dos oito membros, - porque os que lá estavam foram avaliados como incompetentes, foi isso? - se em cima da época de incêndios houve também muitas mudanças na estrutura de comando operacional,  - em nome da melhor obtenção de resultados? - e se depois de Pedrogão houve duas demissões pelo menos na Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC) em virtude das falhas que terão sido cometidas durante o incêndio mais mortífero de sempre e ninguém se manifestou contra, agora Constança não pode ser demitida pois estamos a fazer dela um bode expiatório? E porque será substituída por um clone dela mesma... e nisto eu acredito.

Não entendo nem a obstinação de Costa em relação ao deferimento do seu pedido de demissão nem à remodelação do MAI, nem a de muitos que pelas redes fora se manifestaram como se ela fosse um elemento insubstituível. Onde estão os resultados impactantes da sua acção na criação de uma política de preservação e continuidade da floresta portuguesa? Some-se ao que disse as  resoluções do MAI para este fim-de-semana quente ou a sua ausência. Se esses muitos que defendem Constança fossem responsáveis por grandes empresas e nomeassem uma pessoa para um lugar de responsabilidade e confiança, e ela vos falhasse, continuariam a ser assim tão magnânimos? Dar-lhe-iam mais uma oportunidade? Devo ser muito insensível então. Por muito capacitada na área jurídica e trabalhadora, pura e simplesmente Constança e o seu MAI não estavam a dar a resposta que é esperada e ter mantido Constança obstinadamente desde Pedrogão  foi apenas alinhar com o rol de subjectividades que todos desejamos combatidas. 

10/16/17

Um dia de fogo na Marinha Grande - 15 de outubro de 2017














Muitas questões a lavrar-me por dentro. Temos o conhecimento mas ainda não interiorizámos rotinas de prevenção e alerta. Persistimos em comportamentos de risco fruto de hábitos antigos, tradições, vícios de carácter. Os tempos mudaram e o tempo mudou. O clima mudou. Temos de mudar muito e muita coisa. Não temos é coragem para assumir tamanha empresa. E enquanto isso o país espera que não aconteça o pior. Mas acontece. O país arde e morre gente. Se é algo complexo, que demora a ser feito, então vamos iniciar a tarefa quanto antes, agora, já. Do mais fácil para o mais difícil, de possível em possível. Que todos os que concorrem na responsabilidade se impliquem na solução. Que se chame quem sabe a pensar e a fazer o que pode ser feito antes que Portugal desertifique e se transforme no norte de África. E já agora que se coloque quem sabe à frente da tomada de decisões importantes. E que se pare de distribuir lugares de responsabilidade pela cor dos lindos olhos. E se apurem falhas porque gerir estes assuntos não pode continuar a ser um rega-bofe: quem aceita ou mostra estar à altura ou responde pelo desaire, em Lisboa ou na província. Até parece que quanto mais importante o posto mais desculpáveis os erros. Tudo isto é coisa que vem de longe, de muitos verões passados. Não me digam não ser agora o tempo de julgar e criticar, que as vítimas exigem o recolhimento e o infortúnio pede o luto: o tempo já era ontem e ontem já era tarde. Sim, continuo irada pelo que assisti e pelo que antevejo ainda.E também porque não posso fazer nada a não ser vociferar e gesticular para o ar como uma idiota. E também por saber que nada me garante que quem está à frente dos nossos destinos não falhe de novo. Errar é humano mas não aprender com os erros é descrédito. E isso é pior que falhar de novo. Se isto não é o inferno é, todavia, um ciclo infernal que Portugal não merece, ninguém merece esta desolação. Não nos entreguemos sem luta à conformação de que não se pode fazer melhor.

Sugestão de leitura: 

"Paulo Fernandes, perito da Comissão Técnica Independente, alerta que poderiam ter sido tomadas medidas perante o elevado risco metereológico. Furacão Ophelia elevou o perigo de incêndio para recordes nacionais" Ler o texto integral, aqui.

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