8/5/17

O equidna vai à praia




Quando logo mais forem à praia e não se lembrarem de adivinha melhor para contar à miúda que acabaram de conhecer, podem usar esta: que animal tem bico e põe ovos mas não é ave, tem bolsa mas não é canguru? Resposta: o equidna. Eu testei uma outra adivinha sobre o bicharoco em causa com um cinquentão bem apessoado mal acabado de conhecer, foi uma espécie de ice-breaker, enquanto devorávamos um ouriço ali para os lados da Ericeira: não é homem mas animal e tem título real. Que bicho é? Ele não fazia ideia. É uma espécie de equidna da Indonésia que recebeu o nome de Sir Attenborough, o naturalista, - disse-lhe eu. Devolveu-me a cultura animal com um negro laudo sobre uma tal Equidna, o corpo metade jovem mulher, a outra metade, uma serpente. Vivia numa caverna no ventre profundo da terra, longe do olhar dos homens e da atenção dos deuses. Casou com o deus Tifão, tornando-se a mãe de todos os monstros, por exemplo, Cérbero, o cão de três cabeças, que guardava as cavernas e grutas mais profundas e os cantos mais terríveis do reino de Hades, o mundo dos mortos, ou Éton, o abutre que comia diariamente o fígado do condenado Prometeu. Equidna e suas crias possuíam uma natureza terrível e adoravam devorar viajantes inocentes. Fiquei depois a saber que o homem era professor de História com uma paixão bicuda por mitologia clássica. Um clássico. Ele ficou desapontado quando lhe disse que não, eu não era bióloga e antes jurismamífera de formação e cheia de paixões bicudas por tudo e por nada.



Foquemos agora neste trôpego video de verão: o equidna foi à praia. E porque não? O equidna até sabe nadar. Esperem tudo deste peculiar animal um pouco ave, um pouco ouriço, um pouco canguru. São monotremados, é assim que se chama a esta ordem de animais que têm cloaca por onde excretam e também saem embriões envoltos em casca que depois ficam a viver na bolsinha da mãe: terminado o choco são do tamanho de um feijão. Já agora, “trema” quer dizer abertura. Não confundir com monotramados: os “monos tramados” somos nós, macacos deslumbrados e cegos com as luzes da cidade. Regressando aos equidnas, os pobres são meio ceguetas mas equilibram o défice de visão com audição aguçada - já Diogenes dizia que nós temos dois ouvidos e uma língua para que possamos ouvir mais e falar menos - e olfacto perspicaz. Têm uma língua muito comprida e pegajosa, mesmo ajeitadinha para caçar formigas e térmites e minhocas. Vêm trilhando o seu caminho desde tempos pré-históricos, passo a passo, perna entroncada e curta, garras longas, aguçadas, e corpo espinhoso semelhante ao de um ouriço comum. Quem sabe por ser um bichinho solitário que não se mete na vida dos outros - já Sartre dizia que o inferno são os outros - é assim, longevo, chamam-lhe um fóssil vivo. Os testículos dos equidna ficam na região abdominal e o pénis encontra-se na cloaca. Pode parecer uma experiência laboratorial algo exótica ou controvertida da mãe Natureza mas funciona porque eles povoaram a Tasmânia, a Austrália, a Indonésia e a Nova Guiné. A estranheza não se fica por aqui. Estas curiosas bolas espinhosas – se ameaçados têm duas tácticas, ou se enrolam numa bola hermética, escondendo o focinho bicudo e a barriga vulnerável, ou se enterram rapidamente no chão, pois são uma espécie de mini TBM animal, TBM, são aquelas máquinas perfuradores de túneis, do género das que operaram o milagre de unir a ilha inglesa com a França, - não têm mamilos e antes glândulas mamárias para a produção do leite. O líquido sai por poros e escorre nos pelos da região abdominal das fêmeas. Imaginem esta solução nos humanos! Se amamentar em público já é censurável e abjecto para tantas boas almas e o líquido sai de um par de tetas bem acabadas, imaginem, imaginem, se conseguirem, leite a escorrer dos nossos poros e nossas crias humanas a lamber da pele que nem gataria sôfrega. A Natureza quis proteger-nos de imagens potencialmente chocantes mas nós, sempre brilhantes na nossa perversão, fomos logo encontrar defeitos na perfeição. Pobres equidnas, que espectáculo pegajoso que não deve ser, uma porcaria pegada. Mas, por outro lado, devem ficar com a pele bem macia da proteína do leite. Boa praia e boas adivinhas.

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